As raízes e os guerreiros japoneses
A história do Jiu-Jitsu está ligada às antigas artes marciais do Oriente. Uma das narrativas tradicionais associa suas raízes à Índia, de onde conhecimentos de combate teriam seguido para a China e, posteriormente, para o Japão. Embora essa trajetória não seja historicamente comprovada, foi em território japonês que o Jiu-Jitsu se desenvolveu como uma tradição marcial reconhecida.
Durante o Japão feudal, os samurais precisavam dominar técnicas de combate mesmo quando estavam desarmados ou impossibilitados de utilizar suas espadas. Surgiram, assim, diferentes escolas de Jiu-Jitsu, que ensinavam projeções, imobilizações, estrangulamentos e torções articulares, valorizando a técnica e o aproveitamento da força do adversário.
O conhecimento marcial era tratado com grande respeito e, em algumas escolas, mantido sob rigoroso sigilo. Os alunos assumiam compromissos de fidelidade aos mestres e não podiam transmitir determinadas técnicas sem autorização. Cada escola preservava seus próprios métodos e tradições.
A abertura do Japão e a transformação das artes marciais
Durante mais de dois séculos, o Japão manteve fortes restrições ao contato com países estrangeiros.
Essa situação começou a mudar em 1853, com a chegada de navios norte-americanos comandados pelo comodoro Matthew Perry. No ano seguinte, a assinatura de um tratado abriu portos japoneses ao contato com os Estados Unidos.
Em 1868, a Restauração Meiji iniciou uma profunda transformação política e social no país. Com a modernização das forças armadas e o declínio da classe samurai, muitas escolas tradicionais de combate perderam espaço.
Foi nesse cenário que as antigas artes marciais começaram a ser reorganizadas, deixando gradualmente de atender apenas às necessidades militares e passando também a integrar a educação e a prática esportiva.
Jigoro Kano e o nascimento do Judô
Em 1882, o mestre Jigoro Kano fundou o Kodokan, em Tóquio, dando origem ao Judô moderno.
Após estudar diferentes escolas de Jiu-Jitsu tradicional, Kano selecionou e aperfeiçoou técnicas, desenvolvendo um método de ensino que valorizava a eficiência, a segurança, a disciplina e o desenvolvimento físico e moral.
Sua proposta inicialmente enfrentou resistência de representantes das escolas tradicionais.
Na década de 1880, alunos do Kodokan participaram de importantes confrontos contra praticantes de outras escolas de Jiu-Jitsu, inclusive em eventos ligados à Polícia Metropolitana de Tóquio.
Entre os grandes representantes dessa época estava Shiro Saigo, conhecido por sua habilidade nas projeções. As vitórias conquistadas pelos alunos de Kano contribuíram para fortalecer a reputação do Judô, que passou a ganhar espaço nas instituições japonesas.
As 40 quedas e a expansão internacional
Uma das grandes contribuições de Jigoro Kano foi organizar o conhecimento técnico para facilitar seu ensino.
Em 1895, o Kodokan estabeleceu uma classificação de técnicas de projeção conhecida como Gokyo no Waza. Posteriormente, em 1920, esse sistema foi reorganizado em 40 projeções, distribuídas em cinco grupos de oito técnicas.
Essa organização tornou-se uma referência para o ensino do Judô em diversos países.
Com a crescente abertura do Japão e o intercâmbio internacional, mestres japoneses começaram a levar seus conhecimentos ao Ocidente. Na Inglaterra, professores como Yukio Tani ganharam notoriedade no início do século XX, por meio de demonstrações, aulas e desafios contra lutadores de diferentes estilos.
Foi nesse período que o Jiu-Jitsu e o Judô começaram a conquistar admiradores muito além das fronteiras japonesas.
A chegada ao Brasil
No início do século XX, professores japoneses passaram a apresentar e ensinar Jiu-Jitsu no Brasil.
Entre eles destacou-se Mitsuyo Maeda, conhecido como Conde Koma, que chegou ao país em 1914 e posteriormente se estabeleceu em Belém, no Pará.
Seus ensinamentos contribuíram para a formação de importantes praticantes brasileiros. Nas décadas seguintes, Carlos Gracie, Hélio Gracie e outros pioneiros, como Luiz França e Oswaldo Fadda, tiveram participação fundamental no desenvolvimento e na divulgação da modalidade.
O Jiu-Jitsu Brasileiro consolidou características próprias, especialmente na luta no solo, no controle das posições e nas técnicas de finalização.
Com sua expansão internacional e o crescimento das competições, tornou-se uma das artes marciais mais reconhecidas do mundo.
Hoje, o Jiu-Jitsu preserva sua tradição enquanto continua evoluindo, transmitindo valores como disciplina, respeito, perseverança e superação a novas gerações de praticantes.




